PICAPE VELHA, BRINQUEDO NOVO

Comprar velhas camionetas Ford ou Chevrolet por 20 ou 30 mil cruzeiros e restaurá-las inteiramente é a nova moda que está surgindo em São Paulo.

         De repente, um som musical de motor envenenado. Pneus cantam, deixando fumaça no asfalto. Mudanças de marchas sucessivas mostram um câmbio com relações esportivas. De longe, até parece um carro de corrida dos bons. Quem pensar isso, porém, se surpreenderá: Trata-se de uma picape Ford, muito antiga, carinhosamente reconstruída pelo seu dono. A moda já existiu a alguns anos, em conseqüência dos filmes norte-americanos que passaram a mostrar uma nova categoria de mocinho, pilotando picapes incrementadíssimas. Mas o que está acontecendo agora no Brasil é uma nova moda. As picapes são antigas - do pós-guerra até 1959 ou 1960 - e, depois de pacientemente reconstruídas, tornaram-se verdadeiras jóias. Seus proprietários, jovens ou velhos, ricos ou pobres, têm um ponto em comum: o grande amor por essas camionetas antigas. Comercialmente, é bom negócio. Uma picape Ford ou Chevrolet dessa época, geralmente em mau estado pode ser comprada por Cr$ 20 ou Cr $30 mil. Depois de remodelada atinge preços superiores a Cr$ 200 mil

AS FORD

         Fernando Couto Bonilha, arquiteto de 24 anos, comprou sua Ford 1959 pro 2500 cruzeiros, sem motor, há quatro anos. Ela estava danificada, com muitas partes da cabine e da caçamba podres. Com grande dose de paciência e aproveitando as sobras de sua mesada de estudante , aos poucos a foi reconstruindo. Hoje ela é um encanto: tem motor de Mustang de 352 polegadas cúbicas, carburador quadrijet comando brabo, câmbio no chão, bancos esportivos, lataria totalmente refeita, a pintura vermelha, os escapes saindo lateralmente, a suspensão rebaixada e rodas especiais. Também vermelha, a Ford 1958 de Márcio França Danese, estudante de 23 anos, é ainda mais bonita e tem uma característica única: sua frente pode ser aberta inteiramente sobre o pára-choque dianteiro mostrando toda a sua mecânica. O motor é quase todo cromado e cada peça pintada de cor diferente. Tem até direção hidráulica e foram varias ofertas de 250 mil cruzeiros, rejeitadas. Verde-Claro, com teto pérola (suas cores originais), assim é a picape de Marcos Margiota, estudante de 19 anos. É uma Ford 1959, modelo F-100, com a particularidade de ter os pneus traseiros de Buggy, montados em grandes rodas cromadas. Marcos a comprou há oito messes por 60 mil cruzeiros e já rejeitou ofertas de 150 mil. Os motores dessas picapes Ford são originalmente os V-8, importados ou fabricados no Brasil, com válvulas no cabeçote. Mas as picapes de Antonio Carlos Silvério e Vanderlei Augusto Papa ainda conservam o velho motor V-8, conhecido como 8BA, de válvulas laterais. Sua reconstrução foi feita tendo em vista a originalidade do modelo, o que as transformou em verdadeiras peças de coleção. A primeira é de 1951 e a outra de 1949. Antonio Carlos comerciante de 29 anos comprou a sua do jeito que esta por 160 mil cruzeiros, tendo já rejeitado 220 mil por ela. Vanderlei pagou 150 mil pela sua, mais antiga, mas igualmente restaurada com esmero e carinho. Diz que não a vende por dinheiro nenhum: "Pelo menos por enquanto, o que eu estou querendo é curtir bem o carro". A picape de Vanderlei, além da originalidade e de seu estado de conservação, tem dois destaques: diferencial de Galaxie, e uma escadinha cromada na caçamba.

AS CHEVROLET

         Com uma frente impotente, a picape de Antonio José Tezzei é uma das poucas Chevrolet restauradas que existem, Trata-se de um modelo de 1954, verde-escuro, adquirida a princípio para trabalhar na loja de seu dono, entregando mercadorias. Mas a paixão tomou conta de Antonio e o fez mudar de planos: começou a restaurá-la e agora deixa em casa seu automóvel para passear com ela. Não apresenta modificação mecânica, salvo rodas cromadas e pneus menores, mas seu estado de conservação faz com que pareça ter saído ontem da loja. Antonio pagou 30 mil por ela e já rejeitou oferta de 200 mil. A mais antiga das picapes fotografadas por Quatro Rodas foi a Chevrolet de Giuseppe Luís Indelicato, industrial de 24 anos. Era também a menos incrementada, pois foi comprada há pouco tempo, por 15 mil cruzeiros. Mas assim que iniciou os trabalhos de restauração, Giuseppe se entusiasmou tanto que diz que não a vende mais. A verdade é que, a exemplo do que já acontece em outros países, o brasileiro esta tomando gosto pelos carros antigos e as picapes são, agora, a ;ultima moda em restauração. As que se podem comprar geralmente estão tomadas pela ferrugem, mas nada é tão grave que um bom funileiro não possa dar jeito. É preciso atenção para este detalhe importante: a caçamba deve ser pequena, que deixa os pára-lamas de fora. As caçambas mais modernas costumam ser mal vistas pelos picapes maníacos.